Romance em SP
Eu estava na Liberdade
sozinho comendo meu tempurá
quando ela chegou ao meu lado,
pegou minha mão e disse:
“Me leve para o Paraíso”
“Sim, claro, baby”, eu falei,
mesmo sabendo que liberdade e paraíso
são sentimentos totalmente contraditórios
Pegamos o busão 857R-10 de cor rosa
e nos casamos na igreja Santa Generosa
Foi amor à primeira vista
Depois de toda superação
transamos por toda noite no Studio Motel
e fomos tomar a saideira no bar Pirajá
Ouvindo bossa nova voz e violão no Bar Naldo
o ex da Lucrécia
Passeamos pela avenida Paulista
visitamos o Masp, o Trianon, a Casa das Rosas
Lá curtimos Monica 60 anos, sempre forte e amorosa
espancando o Cebolinha
Compramos suvenires eletrônicos no Top Center
Visitamos a Livraria da Vila na Lorena
Lemos algumas contracapas, compramos chicletes,
Passeamos pela Oscar Freire, mas achamos tudo muito feio
para nossa falta de desgosto
E fomos para a avenida São João ouvir discos na
Baratos a fim: do Odair José, Mutantes, Secos e Molhados,
Joe Cocker, Bob Dylan, Led Zepelim, Zaz
Passeamos na Galeria do Rock de mãos dadas,
corremos dos trombadinhas no Anhangabaú,
comemos no Sujinho imitando Caetano, Gil, Bethânia e Gal
Depois fomos para a Lapa e curtimos a praça do pôr do sol
De lá víamos quase toda São Paulo de muito alto
Sentíamo-nos deuses
e pensamos em muitos novos horizontes para nossas vidas
Fomos muito felizes por alguns meses
Mas ela curtia Rimbaud e eu, Verlaine
Quem atirou primeiro foi ela,
eu fugi para Perdizes
e ela ficou 2 anos presa no Carandiru
Sorte dela é que demoliram o presídio
e agora lá é o Parque da Juventude
Depois ela tentou a Consolação
mas eu já estava apaixonado pela Rebouças
Sumi e nunca mais a vi
Dizem que ela agora está “trampando”
na 25 de Março, vendendo fantasias, joias
e relógios importados do Paraguai
Depois de tudo eu aderi à globalização:
trabalho na Berrini, moro no Brooklyn
e estou comendo a Moema
De vez em quando saio com a Madalena pela Vila,
levo a Pompeia para jantar no shopping Bourbon,
vou ao centro beliscar a Ifigênia no sujinho,
comemos joelho de porco no bar do Léo
e depois assistimos alguns pornôs no Cine Arouche
Mas feliz mesmo eu sou quando tem jogo do Juventus
na Mooca, lá tem o melhor cannoli de São Paulo,
xingamos o juiz, xingamos o time todo (xingar é um livramento)
Depois vamos à Di Cunto comer alguns doces
pois ninguém é de ferro e precisamos adoçar a vida
Damos um rolê com o tatu a pé de carrão até o Itaquerão
assistimos a um jogo do Timão, entramos na “vibe”
gritamos “é nóis mano”, “tamos na fita”
Erramos o português para ver se a vida conserta
mas não adianta, o time desanda,
no final só empata
Depois damos um pulinho no Grajaú
colhemos flores, nadamos na represa Billings
quase morremos afogamos
mas um nego salva-vidas nos tira da água
faz respiração boca a boca e nos salva
(difícil será esquecê-lo)
Logo após vamos meditar no templo budista Nambei Honganji
da Cursino, rezamos na catedral da Sé,
nos confessamos no Templo de Salomão no Brás
mas nada nos acalma
uma sede incontrolável
uma ansiedade obsessiva compulsiva
uma inquietude de sermos audazes
e fazermos muitas coisas “nonsense”
Voltamos ao Ipiranga e gritamos
“Independência ou Porre”,
Claro que é “porre”,
tomamos dez doses na cachaçaria “E Agora José”,
pois a vida precisa de máscaras,
declamamos alguns poemas, cantamos muitas canções,
vomitamos no banheiro,
chegamos em casa completamente bêbados
chamando Jesus de Jessé e Maria de Mané
E assim terminam os dias na famigerada SP
Liberdade, Paraíso, Perdizes, Consolação
são mais que bairros; são os sentimentos
aflorando em comunhão com a cidade
Desencontros da vida de quem tem muito arranhão
Amanhã, recomeço!
FIM
MARCELO AUGUSTO BISSOLI
Enviado por MARCELO AUGUSTO BISSOLI em 09/09/2025
Alterado em 09/09/2025